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terça-feira, 31 de março de 2015

BMH Entrevista - Biquini Cavadão


Da amizade entre amigos de colégio, no Rio de Janeiro, surgiu uma das bandas ícones do rock brasileiro: Biquini Cavadão. Com mais de 30 anos de sucesso, nenhum disco da banda passou despercebido aos ouvidos apurados do grande público. Foram mais de um milhão de cópias vendidas, composições atemporais e interpretações marcantes. Com uma interatividade sempre inovadora e admirável, o Biquini Cavadão - tendo Bruno Gouveia como interlocutor - nos cedeu uma entrevista que merece ser lida.


BMH Entrevista - Vocês estão completando 30 anos de carreira. Na verdade, são trinta anos de sucesso. Atravessaram gerações e continuam com canções emblemáticas na boca do Brasil. Conte-nos como começou isso tudo e quando vocês perceberam que não eram mais uma banda apenas do RJ, mas sim do Brasil inteiro? 

Biquini Cavadão - Acho que logo que Tédio, nossa primeira música e razão de termos assinado um contrato com a gravadora Polygram, ter chegado às rádios, vimos que o Brasil inteiro ouvia nossas músicas. Ainda assim, o ano de 1985 teve shows em sua essência no Rio. Foram alguns mais em São Paulo, e três em estados como Paraná, Minas e Espírito Santo. Para quem havia começado sem maiores pretensões no show business, isso para nós já era um salto e tanto. 

BMH Entrevista - Quais foram e quais são as principais influências do Biquini Cavadão? 

Biquini Cavadão - Ao contrário de bandas que se juntam porque gostam de levar um som de um determinado artista, o Biquini Cavadão surgiu pela amizade entre nós. Foi então que percebemos que cada um gostava de coisas diferentes que iam do samba à música clássica. E tinham bandas que um amava e o outro odiava Mas o somatório destas influências é que foi vital para gerar a nossa sonoridade. 

BMH Entrevista - Vocês foram a primeira banda de rock a criar um e-mail. Depois vocês inovaram mais uma vez e foram a primeira banda brasileira a ter um site. Foram os primeiros, também, a lançar um disco com um kit de acesso à internet. O show de vocês é conhecido pela interação incomparável mantida entre a banda e o público. Como vocês pensam essa interação intensa com o público e com os fãs? 

Biquini Cavadão - Antes de tudo isso, já tínhamos uma caixa postal para receber cartas que os fãs nos enviavam. E nós mesmo respondíamos. Sempre acreditamos nesta relação direta, sem intermediários com os fãs. O que hoje as pessoas falam de fidelização, nós já colocávamos em prática desde o início. 

BMH Entrevista - São muitas as músicas do Biquini Cavadão que se endereçam às mulheres. Em alguns grandes sucessos do grupo, nomes chegam a ser citados.Essas composições são meramente poéticas ou existe sempre uma musa inspiradora por trás desses grandes sucessos? 

Biquini Cavadão - Para cada uma existe uma história. Janaína surgiu quando fomos tocar me Miguel Couto, subúrbio de Nova Iguaçu. Era longe e lá morava uma pessoa que trabalha na minha casa desde que eu era pequeno. Foi assim que percebi o quanto ela se deslocava para trabalhar. E fiz a letra pensando na força da mulher no mercado de trabalho. Quanto à Dani, tudo surgiu numa noite em que Coelho e Manno Góes (do Jammil) resolveram escrever uma poesia num bar falando da hostess que se chamava Dani, que estava com a camiseta da Marilyn Monroe, que queria largar logo o trabalho para voltar pra casa, enquanto eles comentavam sobre Figo, Ronaldo e Zidane no Real Madrid. 

BMH Entrevista - O Biquini se mostra uma banda bem diversificada, musicalmente falando. Vocês falam de amor, na medida em que também fazem críticas sociais. Em músicas como “Janaína”, vocês criticam o fatídico dia a dia de um mundo complexado. Em outra composição mais recente, “Livre”, vocês fizeram alusão às reivindicações das ruas, ocorridas em junho de 2013. Qual a visão do Biquini Cavadão entre música e movimento/crítica social? 

Biquini Cavadão - Não somos ideológicos, somos cronistas do que está à nossa volta. Livre cita as manifestações mas o principal é falar sobre a nossa liberdade de se exprimir num momento em que o patrulhamento é ostensivo e de ambos os lados, por exemplo. Como artistas, fazemos músicas assim, mas existem aqueles que são geniais e que não precisam escrever sobre critica social. Para nós, é mais uma forma interessante como tema e que temos facilidade em abordar este assunto. 

BMH Entrevista - Dos anos 80 até os dias de hoje muita coisa mudou. Em relação à música isso não foi diferente. Novas preferências, estilos, bandas e até gêneros apareceram. Como vocês enxergam o rock brasileiro atual? 

Biquini Cavadão - Voltou ao underground, mas tem muita coisa boa. Locomotron, Los Porongas, Seu Zé, gente que faz boa música além do modismo vigente. Com perseverança, o grande público acabará os conhecendo. E é necessário ter essa paciência. Sempre lembro aos fãs que desde 1978 que a Legião já compunha de alguma forma. E só em 1985, sete anos depois, é que o seu primeiro disco chegou às lojas. 

BMH Entrevista - Depois de analisar o rock, como o Biquini Cavadão enxerga o novo cenário musical brasileiro? A qualidade da nossa música está perdendo a guerra contra uma forte indústria musical vigente, que por sua vez privilegia uma cultura mais descartável? 

Biquini Cavadão - Nada tem a ver com a indústria. Tem a ver com imediatismo de todos. Poucos compartilham boa música, preferem enviar bobagens uns pros outros. Se uma música é tosca, todo mundo sabe na hora. Se uma música é boa, o mesmo não acontece. E quando algo “bomba” na net. isso é creditado como sucesso - o que é um erro. Visibilidade não é igual a sucesso. A mídia precisa cada vez mais de conteúdo e os radialistas também querem algo que toque com mais aceitação. A indústria do disco supre a demanda daqueles que querem este tipo de som. Se queremos que este cenário mude, a mudança deve vir de nós ouvintes. 

BMH Entrevista - São mais de 1 milhão de cópias vendidas. Nenhum álbum lançado por Biquini Cavadão passou despercebido diante do Brasil. São muitos os hits de sucesso. Qual a sensação e qual a lição que vocês tiram disso tudo? 

Biquini Cavadão - Só podemos agradecer ao grande público por acreditar em cada projeto. Nossos discos não saem como pães de uma padaria. Eles precisam ser maturados e cada um representa nossas idéias. É bom ver que elas são bem vindas 

BMH Entrevista - Vocês já fizeram vários shows no exterior, inclusive em grandes eventos como o Hollywood Rock, onde abriram o show para Red Hot Chili Peppers. Depois de toda essa experiência, o Biquini pode nos dizer o que o rock brasileiro tem que não encontramos no rock que é tocado lá fora? 

Biquini Cavadão - Primeiramente, somos brasileiros e o rock é uma cultura importada, do mesmo jeito que ingleses, por melhor que toquem não farão sambas tão geniais como os nossos. Isso não quer dizer que sejamos ruins mas nomes como Sepultura são exceções à regra. No exterior você trabalha com um nível profissional em cada evento que é infinitamente superior ao que se vê por aqui. Estamos ainda humildemente aprendendo , mesmo com 30 anos nas costas a evoluir tecnicamente e profissionalmente. No quesito composições, entretanto, temos belas canções e grandes artistas. 



BMH Entrevista - Vocês já vieram algumas outras vezes a Mossoró. Bruno, inclusive, já circulou pela cidade e chegou a conhecer pessoalmente uns pontos turísticos. Para o Biquini, o que Mossoró tem de melhor? Ela já entrou no coração do Biquini Cavadão, né? 

Biquini Cavadão - Mossoró é uma cidade que nos encanta com seu povo e sua história. Saber de sua resistência no período de lampião foi muito legal e cada vez que venho, descubro mais sobre a hospitalidade potiguar. O que mais gosto de fazer é conversar com os fãs, trocar idéias sobre a perspectiva do mossoroense, de como enxerga o país, de como e o que deve ser feito para melhorarmos. A resistência é o coração de vocês. 

Agora vamos a um bate-pronto rapidinho... 

BMH ENtrevista - O que é música? 

Biquini Cavadão - Minha vida. 

BMH Entrevista - O que é compor? 

Biquini Cavadão - Meu suor. 

BMH Entrevista - O que é interpretar? 

Biquini Cavadão -  Minha alma. 

BMH Entrevista - O que é poesia? 

Biquini Cavadão - Minha fonte. 

BMH Entrevista - Deixe um recado para todos os leitores do blog Musicalmente Humano e para os Mossoroenses… 

Biquini Cavadão - Nesta ultima vez em que estive aí, as chuvas impediram o evento de acontecer. Estou mordido e louco de vontade de voltar para irmos à revanche mais alegre e divertida que poderemos fazer.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

BMH Entrevista - Reynaldo Bessa



Poeta, escritor, músico, professor... podemos dizer que Reynaldo Bessa é um artista na essência da palavra e na compreensão da vida. Nascido no Beco das Frutas, em Mossoró-RN, mas há tempos radicado em São Paulo, Reynaldo transborda poesia e costura cultura por onde passa. Com músicas consagradas nacionalmente,  teve o prazer de dividir o palco com grandes nomes da MPB. Como escritor, teve seu trabalho reconhecido ao receber o Prêmio Jabuti (poesia - 2009) com o seu primeiro livro: Outros Barulhos. Com simpatia e solicitude, Reynaldo Bessa atendeu ao pedido do musicalmente humano e nos cedeu uma entrevista de tirar o fôlego e encher os olhos a cada frase. 

BMH - É bom começar lembrando a todos que você é mossoroense. O que você aprendeu de melhor por aqui que leva até hoje em sua bagagem cultural-poética-musical? 

Reynaldo Bessa - Bom, quando realmente descobri que eu era um artista – e isso é comovente, não? Descobrir-se artista - eu estava em Mossoró. Até então eu só tinha alguns vislumbres acerca disso. Fui bancário, vendedor, balconista, entre outras tantas coisas, mas o que eu queria mesmo era cantar, compor, gravar, e voltar em videoteipes e revistas super coloridas pra menina meio distraída repetir a minha voz... (Carneiro - Ednardo) (risos). Quando, enfim,as cortinas do imaginário abriram-se para mim, vi-me caminhando pelas ruas da minha cidade e sonhando na contramão. Já cometendo as minhas transgressões poéticas permeadas dos deslizes ansiosos da juventude. Na maioria das vezes com um violão debaixo do braço e trechos de músicas na cabeça e também nos bolsos esfarrapados. Então, minhas canções trazem (ainda) o cheiro do mar, da terra, das redes de pesca, dos ruídos das feiras, do som do vento, do clima, dos costumes, das lendas, do folclore, do sabor da comida, do estalar dos primeiros beijos, tudo. Minha música sempre foi aberta a todas as influências e tendências possíveis.Vivi em muitos lugares. Ouvi muita coisa, conheci muitos outros músicos, viajei bastante desde quando saí daí. Mas minhas canções sempre trarão essa saudade de sotaque arrastado e musical.  

BMH - Em sua opinião, você tem seu devido reconhecimento em sua cidade natal? 

Reynaldo Bessa - Definitivamente, não. Mas já cansei de brigar com isso. Enfim, percebi que o reconhecimento é uma porta que só pode ser aberta por dentro. Não há trinco do lado de fora. E não adianta esmurrá-la. Câmara Cascudo dizia que o Rio Grande do Norte não consagra, mas também não desconsagra ninguém. Apesar de ter uma admiração artística (e só) por ele, acho que isso resvala um pouco num dos trechos da Bíblia (não sou católico. Sou antes de tudo um leitor) que diz: “frio ou quente, mas nunca morno...”.Uma coisa assim. Então, não se pode ser mais ou menos. Ou os órgãos de cultura fazem mesmo algo: criam possibilidades, fomentam cultura, reconhecem seus artistas, nossa arte genuína, do contrário, que larguem o osso, abram mão de uma vez por todas e assumam que não querem mesmo nadica de nada com isso. Sou livre e tenho conhecimento suficiente pra afirmar que a cidade já foi, sim, interessada na sua arte e em seus respectivos artistas, mas aos poucos foi fazendo isso feito o gato que lambe os beiços enquanto olha oque outro gato está comendo. E a coisa piorou tremendamente. Escrevi um artigo sobre isso num dos grandes jornais da cidade. O texto deixa tudo muito claro. Perdemos o rumo, o foco. Triste. Eu disse que Mossoró ainda pagaria um preço muito alto pelo consumo de tanto lixo. Isso se reflete em tudo; na educação, principalmente.Na formação do ser. Quer dizer,reflete-se no comportamento, consequentemente, nas nossas opiniões, nas escolhas de nossos dirigentes, nas grandes e pequenas decisões do dia a dia, em nossas relações em geral. Resumindo, limita muito a nossa visão de mundo. Se olharem com atenção perceberão que já estamos pagando as primeiras parcelas dessa dívida insana. O Pernambuco, a Paraíba, o Ceará e Minas Gerais, são os estados que ainda conseguem perceber a qualidade dos seus artistas. E vibram com isso, bradam, brigam, levantam bandeiras e enchem a boca de orgulho quando falam dos seus conterrâneos ilustres. Colhemos o que plantamos. 

BMH - Você faz várias alusões, direta e indiretamente, a Mossoró e a cultura nordestina. “Alfenim”, “puxa-puxa”, “beco das frutas”. Podemos dizer certamente que o nordeste floresce em você a cada composição, né? 

Reynaldo Bessa -  Como disse, minha arte está impregnada de Mossoró. Vivi intensamente essa cidade. Mesmo antes de tocar no rádio eu já era muito conhecido na cidade toda. Todos sabiam quem eu era e muitos já cantavam minhas canções. Eu pude me dar ao luxo de ver muita gente cantando minhas músicas, em shows, em bares, assobiando-as nas ruas muito antes de serem gravadas. Separar meu trabalho de toda a influência que recebi de Mossoró seria o mesmo que apartar o gosto da língua. Parte do que sou está ai. Nasci no Beco das Frutas. Minha carreira musical começou em Mossoró. Não há como negar. Esse sol loiro e de olhos flamejantes é testemunha. 

BMH - Mossoró, assim como o RN e o nordeste, ainda tem muito a oferecer ao país. Mas o que falta para resgatar tantos artistas bons do anonimato, no nosso país? 

Reynaldo Bessa -  Não adianta só ter muito a oferecer, é preciso querer. É evidente que o mercado não comporta todos os artistas, mas é preciso pelo menos que se criem meios para receber boa parte da produção que é feita na cidade. Caso contrário, o artista desiste, muda de cidade, vai fazer outra coisa e nisso, a arte e a localidade acabam perdendo muito. Por outro lado,como já disse, o artista precisa organizar-se, criar força, quer dizer, profissionalizar-se. Ele precisa saber que existe uma verba destinada ao fomento da cultura, e isso é um direito. A arte não pede, exige. É preciso exigir, com embasamento, claro. Quando ainda morava em Mossoró, exigi, corri, fiz, fui atrás. Só quando percebi que não havia mesmo nenhum interesse, decidi partir. Mesmo assim, porque fui escorraçado pela benevolência de alguns amigos mais próximos, que viviam dizendo-me que eu devia mesmo ir tentar a vida “lá fora”. Por essas e por outras, fui mesmo. Até hoje não sei se foi porque eles acreditavam em meu talento ou porque queriam mesmo livrar-se de mim...(risos) 


BMH - A sua ligação com Mossoró é forte, você gravou seu primeiro DVD aqui. Conte-nos mais sobre essa sensação de mostrar, em primeira mão, seu trabalho na sua cidade natal. 

Reynaldo Bessa -  Devo isso a Lúcia Rocha. Ela foi a ponte disso tudo. Empenhou-se de corpo e alma. Ela gosta do meu trabalho, mas, mais ainda, é uma das poucas pessoas que realmente sabem reconhecer, perceber qualidade nas coisas da nossa terra. Eu tinha acabado de lançar mais um disco. Estava com uma banda nova, cheia de vontade e já tínhamos viajado bastante com o show pelo Brasil e até pelo exterior. Estávamos bem afinados e afiados. O teatro de Mossoró é lindo. Enfim, foi um grande momento. Sou muito grato a Lúcia, entre outras pessoas. (Perdoe-me, mas não me lembro os nomes de todos os envolvidos naquele momento). É isso. 

BMH - Uma música sua, de grande sucesso, ainda é facilmente ouvida no rádio, em barzinhos... Apesar de muita gente não saber que essa bela canção é de um mossoroense. Você pode nos contar como se deu o processo de criação de “Bel’atriz”? 

Reynaldo Bessa -  Bel’atriz é uma longa história. Metade dela comecei a escrever quando estava tendo um namorico com uma atriz de uma grande emissora de tv. Uma atriz muito conhecida na época. Depois que o relacionamento-relâmpago acabou, eu segui minha vida feito quem espera uma chuva passar e retoma o seu caminho. Esqueci completamente a música. Até que um dia, quando fui tocar em Assis - para os calouros de uma universidade - encontrei a música dentro de um livro. Eu estava namorando uma estudante de Letras, e ai, apaixonado como sou, sempre, resolvi retomar a canção e fiz a música e a letra na mesma hora, e depois disse que era pra ela, a estudante de Letras (risos)... E logo em seguida esqueci a música novamente. Enfim, quando a gravei e vi o sucesso que fez, fiquei assustado. Ora, mas não era isso que eu queria? Perguntava-me. Mas o ser humano é assim mesmo, quer a felicidade, a liberdade, o amor, só que depois que os consegue, não sabe bem o que fazer com eles. Bom, a música tornou-se maior do que eu, cresceu além de mim. Até me divirto com isso. Um dia, numa das últimas vezes que fui à Mossoró, um amigo que estava comigo perguntou ao músico que estava tocando- estávamos em um restaurante - se ele poderia tocar Bel’atriz. Ele disse que sim, claro. Só que antes de tocá-la, explicou-nos como o artista havia composto a música. Eu ouvi tudo, silenciosamente. Ele falava algo completamente diferente da real situação em que Bel’atriz havia sido composta. Senti-me como se eu fosse mesmo outra pessoa...(risos)... Há várias versões acerca de Bel’atriz. 

BMH - Você tem canções retratando a cidade e o estado de São Paulo em situações cotidianas e em outras mais melancólicas, como “Lamento urbano”. Outros compositores nordestinos cantaram São Paulo, como Belchior e Caetano. Qual foi a sensação de chegar e de viver em São Paulo? É essa situação que faz a canção? 

Reynaldo Bessa - Ah, vamos andar, pelas ruas de são Paulo, por entre os carros de são Paulo, meu amor vamos andar e passear... Vamos sair pela rua da Consolação... Eis ai um trecho de “Passeio”. Belíssima canção de Belchior. Isso fez minha cabeça. Chorei muito ouvindo isso. Longe do meu mar e dos cafunés da minha mãe. Ora, eu era apenas um rapaz latino americano com menos de vinte aninhos... longe de tudo, inclusive dele mesmo... Enfim, “Lamento Urbano” é minha “Sampa’. Canção-retrato do instante em que vi este céu de concreto. Momentos de vislumbres, incertezas, medos, alegrias. Coisas inerentes ao ser humano e muito úteis na formação do artista em Si (maior e menor). Amo São Paulo. 

BMH - Você já foi gravado por Rita Ribeiro e pelo Ira. Tem parcerias com Zé Rodrix e cantou ao lado de artistas como Chico César, Alceu Valença, Moraes Moreira, Zé Geraldo, Geraldo Azevedo, entre outros.Quais são as principais influências diretas em tocar e ser gravado por nomes que você escutava? 

Reynaldo Bessa -  Vejo isso como sinais de que começamos, enfim, a fazer a coisa certa. De repente você está cercado de gente bacana e que faz um trabalho bacana, e que você admira. A Rita é uma querida amiga. Mostrou o desejo de gravar outras coisas minhas, apaixonou-se por “alfenim”, mas há gente demais, né? Acho a gravação dela de uma grandeza absurda. Ela tornou “Devastador”, uma de minhas canções em parceria com meu amigo, Marcelo Abud, numa coisa realmente devastadora. Ela assina, toma a canção pra ela. Porque é assim que faz o verdadeiro artista. Já o Grupo Ira surgiu do meu envolvimento com o Zé Rodrix. Fomos muito amigos, fizemos muita coisa juntos; trilhas sonoras para filmes, diversos projetos, tocamos juntos em inúmeros palcos. Conversávamos todas as tardes sobre os livros que líamos, fazíamos audições dos discos que gostávamos. Então, um dia o Nasi, do Ira ligou pra ele e pediu uma canção para o novo disco - Acústico MTV- do grupo. Aí o Zé me ligou e disse: “vai que é nossa Tafaréu’. Enviou-me uma letra e fiz a música no mesmo dia. Gostaram tanto que até cogitaram a possibilidade de ser a canção de trabalho (que eu costumo chamar de canção de descanso) mas, por i$$o, por aquilo outro, e algo mais, acabou não sendo. Mas ela entrou no cd do grupo, no dvd também, e depois o Nasi, em sua carreira solo (após a dissolução do grupo) a regravou numa versão muito doida. Ele dividiu a canção com uma cantora nova, a Vanessa Crongold. Muitos não gostaram. Eu gostei. Ele experimentou, o que já acho louvável.



BMH - Qual sua opinião sobre a situação da MPB, diante do tão forte mercado da música descartável que avança territórios a cada dia? 

Reynaldo Bessa -  A música descartável sempre existiu. O problema não está exatamente em as pessoas consumirem música ruim a exaustão, mas sim, o que as levou a fazerem isso. O que terá sido? (Esse é o verdadeiro ponto que pede uma reflexão) bom, ai vamos cair numa palavrinha da qual todos costumam fugir, assim como o diabo foge da cruz: educação. Na década de setenta a escola foi abandonada. O ensino foi sucateado. Só os ricos frequentavam boas escolas. Porém, dinheiro nem sempre significa boa formação... Quase nunca, e muito menos compra bom gosto, então, tudo acabou sendo nivelado por baixo. Mas o enfraquecimento da mpb, é também reflexo de diversos outros pontos. Inclusive por parte de alguns representantes da própria mpb. A maioria hoje quer fazer o que dá certo, fórmulas prontas, ninguém arrisca mais, quase ninguém. Pouquíssimos têm conhecimento da tradição musical brasileira. Em minhas oficinas de escrita criativa, toda vez que um aluno diz que vai escrever um livro, eu digo, beleza, manda ver, só não se esqueça que nós temos um Machado de Assis, um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos. Enfim, o mesmo vale para a trupe da mpb: façam seus discos, mas não se esqueçam das grandes figuras que já a representam, e muito bem. Hoje o aplauso é o único objetivo. mpb não é sinônimo de música boa, assim como o independente não significa selo de qualidade. Tem muita coisa ruim, muita, muita aposta em dados brancos.Furadas. Isso também ajudou a quebrar a outra perna. Agora, claro, o que o rádio toca hoje é de lascar. Não ouço mais rádio. Ouço meus discos favoritos. Aos domingos, gosto de cozinhar, abro um vinho e ponho a vitrola pra trabalhar: ai meus Milton, Fagner, Caetano, Gil, Chico, Elba, Cartola, Noel, e também toda trupe da década de oitenta, enfim... almoçam comigo. Porém, apesar de tudo, ainda aposto na música brasileira – não é a melhor do mundo, mas é uma das melhores - de qualidade porque sei que há coisas muito boas em formação. A semente trabalha silenciosamente. É natural surgir uma lacuna entre o que de muito bom aconteceu e o que de muito bom acontecerá. Esse respiro é natural. Mas pra mudar o panorama atual é preciso que se reflita, se pondere, senão...sei lá... o fato é que as pessoas assistem aos filmes que podem. Leem os livros que entendem. Cada geração tem os poetas, os artistas que merece. Não é possível comer carne de segunda e arrotar caviar, salmão. Falta cultura, falta leitura, falta. Então é falta, apito e cartão vermelho. 

BMH - Você participou de diversos festivais de músicas, inclusive foi premiado diversas vezes, mas a grande imprensa não tem dado o valor devido a esses festivais como foi dado outrora, onde surgiram grandes nomes. Acha que a falta de apoio da mídia, nesse sentido, é um dos fortes motivos para um enfraquecimento da MPB? 

Reynaldo Bessa - Acontecem mais de 300 festivais de música todos os anos. Já participei de vários. Ganhei alguns. Atuei e atuo como jurado ou fazendo a triagem das músicas em vários deles. A questão maior é que a fórmula desgastou-se, enfraqueceu. Não tem mais a mesma força. E o contexto é outro. É redondo no quadrado. Só e apenas isso. Mas penso que ainda são eventos de extrema importância, porque é uma forma que os artistas de todos os cantos do país têm de expor, mostrar a sua produção e ao mesmo tempo trocar informações, contatos... Diga-me em qual outro lugar um artista totalmente desconhecido pode mostrar sua música totalmente desconhecida para mil, dez mil, cem mil ou até mais pessoas? Isso com todo o suporte de uma banda bacana, num palco bacana e ainda remunerado por isso? O problema é que essa fórmula de festival é que nem fogueira de palha:queima os três dias, depois se apaga e só volta a ser acesa no ano seguinte. Quase nada acontece fora disso. Quase... eu disse. Vai muito de cada um... Em relação a mídia, ela só dá suporte, algum que seja, aos maiores, que podemos contar ai, cinco festivais destes 300. E estes não têm mais o poder de revelar nomes. Até porque, com o advento da internet todos os grandes focos foram diluídos. Vivemos o momento do tudo ao mesmo tempo agora. Um grande artista pode surgir de onde menos esperamos.

BMH - Alguns anos atrás, você realizou uma turnê por alguns países da Europa. A cultura e arte européia agregaram ainda mais a sua arte? 

Reynaldo Bessa - Sim, muito. Absorvo tudo. Tento conhecer a música do local, a literatura, os músicos. Enfim, é sempre muito enriquecedor. Há três anos que vou tocar no sul da França. Ir a primeira vez é muito difícil, depois fica facinho... (risos)

BMH - Você lançou seu primeiro livro “Outros barulhos”(Prêmio Jabuti – Poesia - 2009). Depois vieram “Algarobas Urbanas” (Contos -2011) e “Não tenho pena do poema” (2012). Mais recentemente lançou “Cisco no olho da memória” (2013). Conte-nos como foi esse ponta pé inicial na literatura e o porquê de ter demorado tanto para nos brindar com seus escritos? 

Reynaldo Bessa - Sempre li muito, desde moleque. Descobri a paixão pela literatura muito antes de me envolver com a música. Lia para habitar a minha solidão que era imensa, devido as inúmeras fugas do meu pai em si mesmo. Aos vinte anos eu já tinha lido muita coisa, pra não dizer tudo, porque essa coisa é maior do que o mar. E já tinha muita vontade de escrever, mas achava que isso não era pra mim. Pensava que literatura era coisa do outro mundo. Achava que pra escrever um grande livro eu precisava estar morto... (risos)... Enfim, todos os grandes livros que eu lia, eram sempre de autores já falecidos. Então, literatura era uma coisa muito distante. Mesmo assim, eu escrevia, rasgava, escrevia de novo, jogava fora, rasgava, escrevia. Enfim, sempre escrevi. Não como agora, claro. Hoje escrevo profissionalmente. Escrevo todos os dias, é mesmo uma disciplina. E ainda têm as leituras diárias, as pesquisas, os artigos para revistas e jornais, enfim. Ai veio o Prêmio Jabuti com meu primeiro livro. Fiquei novamente assustado. E ai vieram outros prêmios. O meu livro mais recente teve menção honrosa no Prêmio Internacional de Literatura da UBE-RJ. Enfim, eles vieram, os prêmios. E isso me deu uma certa segurança. Meio que encheu a minha bola furada. Passei a acreditar mais nisso e a escrever ainda mais. E aos poucos vi que eu tinha mesmo jeito pra coisa. E com relação ao tempo, aprendi que tudo vem no momento certo, nem cedo nem tarde, como dizia Hemingway, na hora certa. Antes de ser um músico, um poeta, escritor de contos, romances, crônicas, um professor que adora os seus alunos, sou um artista. Meu barco é a arte e nele procuro sempre manter as velas içadas... e mar adentro...sempre.  



BMH - Além de escritor, poeta e músico, você também é professor. Conte-nos mais sobre seu lado docente. 

Reynaldo Bessa - Sempre fugi disso. Por fim percebi que tudo que fiz foi exatamente para isso: ensinar com arte e aprender, principalmente aprender. 

BMH - Quais as mais marcantes relações entre fazer música, escrever e ensinar?

Conhecer pessoas; estes universos absurdamente grandes, compartilhar vida, momentos, ver as reações, os sustos, os vislumbres, tirar alguém de um caminho enviesado, saber que apesar de todos os destroços que causamos por ai, no nosso percurso, todos sem exceção, querem uma única coisa: ser feliz. Participar da construção de um mundo melhor, seja ele utópico ou não, é estar atento ao ser. É ser tão. É mundo. Com a música, com a literatura, com a poesia, com a doação do saber, não importa. Através da arte, a felicidade é o alvo. 

- Agora vamos a um bate-pronto rapidinho... 

BMH - O que é música? 

Reynaldo Bessa - Ninfa inconstante. 

BMH - O que é poesia? 

Reynaldo Bessa - Poesia não é. Poesia há, ou não. 

BMH - O que é escrever? 

Reynaldo Bessa - Escapar de si mesmo. 

BMH - O que é ensinar? 

Reynaldo Bessa - A arte de receber doando. 

BMH - Um cantor... 

Reynaldo Bessa - Raimundo Fagner. 

BMH - Uma música... 

Reynaldo Bessa - The fool on the hill. 

BMH - Uma cidade... 

Reynaldo Bessa - Paris. Lá fui feliz. 

BMH - Um livro...

Reynaldo Bessa - “Viagem ao fim da noite” de Louis-Ferdinand Céline – escritor francês.(No original). 

BMH - Um poema... 

Reynaldo Bessa - O preciso. 

BMH - Um poeta... 

Reynaldo Bessa - O raro. 

BMH - Um artista potiguar... 

Reynaldo Bessa - Antônio Francisco Teixeira de Melo. 

BMH - O que é ser musicalmente humano? 

Reynaldo Bessa - Dançar no ritmo de si mesmo. 

BMH - Quando virá a Mossoró, seja para visitar, lançar outro livro ou fazer um show? 

Reynaldo Bessa - Isso será sempre uma incógnita. Talvez seja mais fácil entrar no reino dos céus. (risos)...Já cogitaram duas, ou mais vezes, já não sei, a ideia de me levarem para a feira do livro... Lembra da história do gato? Bom, por mim, espero que logo. Mas esse ano também tenho muito o que fazer. Lanço dois livros; um romance e um livro infantil (estreias) Tenho viagens pelo Brasil e exterior, tenho livros para revisar, alunos para orientar, oficinas de escrita criativa (que adoro), livros para ler, festas literárias, saraus, palestras em universidades, bate-papos, lançamentos...enfim... E eu não posso esquecer que tenho família, namorada, gato, ex-mulher, amigos e também inimigos.... Ufa...É a vida. 

BMH - Deixe um recado para Mossoró e para todos os artistas mossoroenses... 

Reynaldo Bessa - Sobre Mossoró, penso que já falei o suficiente. Para os artistas: “Não desistam. Nunca”.




sexta-feira, 26 de setembro de 2014

BMH Entrevista - Bráulio Tavares



Poeta, escritor, roteirista, cantor, compositor... Esses são alguns atributos do nordestino de Campina Grande-PB, Bráulio Tavares, ou Trupizupe, o Raio da Silibrina, como pode ser chamado. Parceiro de grandes nomes da MPB, como Lenine, Elba Ramalho, Zé Ramalho, além de outros não tão expressivos no cenário nacional, mas não menos importantes como Ivanildo Vilanova (com quem fez a música Nordeste Independente), Bráulio se mostra um gênio da cultura popular brasileira e nordestina. Atualmente, Bráulio tem seu espaço na internet, através do blog Mundo Fantasmo ele posta diariamente artigos. Ao participar da X Feira do Livro de Mossoró, o Trupizupe nos deu a honra de uma entrevista para o nosso blog, onde fez revelações interessantes e curiosas, sempre com a sua inteligência digna do repente nordestino.  


BMH - Literatura, música ou cinema, quem veio primeiro? E, para você, qual a relação entre essas três artes? 

Bráulio Tavares - A literatura veio antes de tudo. Sou um leitor muito precoce, porque meu pai era jornalista e poeta, e eu fui ciado numa casa cheia de livros. A música veio também na infância, com o rádio. O cinema, pra valer, apenas a partir dos 16 anos, quando entrei para um Cineclube. Profissionalmente, sempre quis ser escritor. Meu trabalho como compositor é uma decorrência disso, porque sou basicamente letrista, e em função disso comecei a compor e cantar. Para mim, a relação entre as três coisas (e tudo o mais que faço - teatro, TV) é sempre o texto. Sou um criador de textos: contos, poemas, artigos de jornal, letras de música, roteiros de cinema. Vivo em função do texto.

BMH - Você já falou que a crítica te considerou o cantor mais desafinado da música brasileira, porém outra parte da crítica já te considerou o escritor mais afinado da literatura nacional. Até que ponto ser desafinado influencia na sua performance no palco, se você contem músicas com bons conteúdos?

Bráulio Tavares - Aquilo foi uma brincadeira minha quando estava gravando o clip. Na verdade, a crítica nunca se pronunciou a meu respeito. Não me lembro de jamais ter saído uma matéria comentando um show meu. Meus álbuns de recortes têm entrevistas, artigos falando sobre mim de um modo geral, anunciando o show "de hoje à noite", mas críticas pós-show... nada! Eu não sou mais desafinado do que a maioria dos que grava discos profissionalmente. A verdade é que não gosto muito da minha voz porque a considero pouco expressiva. O problema nem é de afinação é de pouca carga emocional, talvez, mas isso não é algo que se possa simplesmente resolver mudar. A voz é assim, e tchau. E o importante pra mim são as letras das minhas canções.



BMH - Suas músicas trazem um quê literário e poético, fugindo e se diferenciando de uma indústria cultural vigente na atualidade. O que você pensa sobre essa produção em massa de música para comercialização? 

Bráulio Tavares - Não me vejo dentro da "indústria cultural vigente", mesmo tendo muitas músicas gravadas. Canto sempre para públicos de no máximo 300 ou 400 pessoas, na grande maioria não passando de 100 ou 120. É um trabalho totalmente autoral, e o que os outros fazem d carreira deles é problema deles, não meu. A música é um produto de massa que gera bilhões de dólares, mas para mim é um meio de comunicação, em pequeniníssima escala, com pessoas que eu não poderia atingir de outra forma. Neste sentido, sou um compositor/cantor amador (pois não vivo disso), com um trabalho de comercialização restrita (os pequenos públicos a que me referi). Isso é compensado pelo fato de que minhas músicas foram gravadas por alguns amigos (Elba Ramalho, Lenine, Antonio Nóbrega) e alguns artistas famosos que não conheço pessoalmente (Tim Maia, Ney Matogrosso, Maria Rita, MPB-4, etc.) e isso me colocou num patamar que muitos compositores na mesma faixa que eu não alcançaram. Mas minha posição é fora do circuito da indústria musical, e não dentro dele.

BMH - Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. Seríamos um povo patriota, Bráulio? 

Bráulio Tavares - Nunca pensei em propor que se separasse o Brasil, sou anti-separatista ferrenho. Essa música é uma ironia. É como uma ameaça, apenas para aumentar a auto-estima do Nordestino. Quero o Brasil unido, sem que os paulistas desprezem os paraibanos, e sem que os paraibanos desprezem o pessoal do Amapá ou de Roraima. Os males do Nordeste, além dos que lhe advêm do Brasil como um todo, são males próprios. Se fossemos um país à parte provavelmente seríamos governados pela família Sarney. Não me parece uma boa alternativa.

BMH - Como você analisa a relação entre a juventude nordestina e o futuro da cultura popular nordestina? A cultura da viola, do cordel, do repente, do cocô, sobreviverão em meio a essa globalização cultural que compromete "culturas-não-midiáticas"? 

Brálio Tavares - Acho que há um momento difícil, não por culpa da juventude nem da cultura popular, mas porque existe uma indústria do entretenimento barato disposta a "passar o rodo" em tudo para obter lucro. O problema é essa gigantesca massificação de axé, forró eletrônico, falsos sertanejos paulistas e tudo o mais, apoiado pelas grandes redes de TV, pelos políticos que proporcionam concessões de rádios espalhadas pelo Brasil, na mão de gente inescrupulosa que as usa para enriquecer. Além do mais, usam métodos dos gangsters, perseguindo, ameaçando, sabotando, fazendo tudo para atrapalhar quem não reza pela cartilha deles. O problema nem é a música ser ruim, são os métodos de que ganha dinheiro com ela. A juventude em geral é simpática à cultura popular, mas a cada nova geração que surge e que é proibida de ter contato com essa cultura, esse vínculo vai se tornando mais tênue. Estamos no meio de uma guerra e não há como prever o resultado. Acho a cultura popular uma coisa capaz de grande resistência, mas talvez ela consiga apenas sobreviver, em pequena escala, num momento em que poderia perfeitamente estar se ampliando e ganhando novos públicos, se esses caminhos não lhe estivessem vedados.



BMH - Você já cursou dois cursos universitários: cinema e ciências sociais. O que a universidade te ensinou de principal e o que ela deixou de ensinar? Se puder comente o porquê da escolha dos cursos.

Bráulio Tavares - A universidade me ensinou o rigor, a precisão na informação e nos raciocínios. Dar indicações bibliográficas precisas. Consultar sempre a versão original, e não o texto citado por alguém. Checar mais de uma fonte, em assuntos delicados ou polêmicos. A maioria dos pesquisadores não-acadêmicos erra geralmente nesses aspectos. Como não sou apenas ficcionista, sou também crítico e pesquisador, precisei dos meus anos de universidade e da influência e conselhos de vários professores, para desenvolver esse meu lado. Escolhi estudar Cinema porque na época fazia cineclube em Campina Grande e queria fazer cinema de qualquer maneira. Pensava em ser diretor, mas também montador ou roteirista (essas duas coisas acabei fazendo mais tarde). Depois, escolhi Ciências Sociais porque queria estudar antropologia, folclore, sociologia da cultura, essas áreas de estudo. E porque muitos amigos meus na época já faziam esses cursos: José Umbelino Brasil, Bolívar Vieira, Tito Carlos da Rocha, Hermano Nepomuceno, Elba Ramalho, etc.

BMH - Você se considera uma pessoa bairrista? 

Bráulio Tavares - Não sou bairrista no sentido de "meu país (minha cidade, etc.) é melhor do que todos os outros". Nasci em Campina Grande, morei em Belo Horizonte dos 19 aos 21 anos, morei em Salvador dos 27 aos 30 anos, moro no Rio de Janeiro dos 32 anos até agora. Amo todas essas cidades e as considero como minhas. Sem falar em outras que também fazem parte de minha história pessoal e profissional, como Recife, João Pessoa, São Paulo... Vejo as qualidades e os defeitos de cada uma, como se fossem pessoas queridas, a cujos defeitos não posso fechar os olhos, mas posso conviver, criticar. Em minhas entrevistas sempre procuro falar de Campina Grande, porque é uma cidade com muitas qualidades, e para mim foi o começo de tudo.

BMH - Atualmente, é notório o alto nível de estrangeirismo na nossa cultura, nos campos musicais, na literatura, entre outros. Como você analisa esse "imperialismo linguístico e cultural", principalmente da cultura americana? 

Bráulio Tavares - É resultado da força econômica norte-americana. Somos consumidores compulsivos de cultura norte-americana. Como não posso evitar ou combater isso -- são decisões macroeconômicas entre governos e empresas, por mais que a gente esperneie não pode fazer nada -- procuro pelo menos batalhar pelo que há de bom. Se estamos submersos em rock americano, pelo menos vou encher a bola dos cantores e das bandas que me parecem ser de boa qualidade. Não podemos mandar tudo embora. Vamos pelo menos, entre o que somos forçados a aceitar, ter um crivo exigente de crítica e de qualidade, rejeitar o lixo cultural. Isso vale para a música, o cinema, a literatura, tudo. Não temos que recusar o que é estrangeiro, temos que criticar e escolher com muito critério.



BMH - O que é compor? 

Bráulio Tavares - Criar uma melodia e depois encaixar uma letra, de sílaba em sílaba.

BMH - O que é música? 

Bráulio Tavares - Matemática que se percebe com o corpo inteiro.

BMH -O que é ser musicalmente humano? 

Bráulio Tavares - Saber usar a música tanto para pensar sozinho quanto pra se envolver coletivamente.

BMH - O cinema brasileiro é... 

Bráulio Tavares - O retrato possível de uma situação impossível.

BMH - Aquele que ler...

Bráulio Tavares - ...aprenderá uma nova maneira de pensar.

BMH - Um filme? 

Bráulio Tavares - "Estamira", documentário de Marcos Prado sobre uma catadora-de-lixo esquizofrênica.

BMH - Um livro? 

Bráulio Tavares - "O Longo Adeus", policial de Raymond Chandler que traduzi recentemente.

BMH - Uma série?

Bráulio Tavares - "Breaking Bad", uma dura reflexão sobre as drogas.

BMH - Uma composição sua que você gosta muito (música ou livro)?

Bráulio Tavares - Meu livro de contos "A Espinha Dorsal da Memória", minha música "O Marco Marciano" (com Lenine).

BMH - Uma música que gosta muito?

Bráulio Tavares - "Desolation Row", Bob Dylan.






sexta-feira, 20 de junho de 2014

BMH Entrevista - Guilherme Paiva


Pós doutor pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisador desta mesma universidade, professor do Mestrado Interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), estas são algumas partes do perfil profissional de Guilherme Paiva Martins. Nascido em Brasília-DF, Guilherme cedo descobriu as duas paixões que o acompanharia pelo resto de sua vida: a música e a filosofia. Formado em filosofia, instrumentista, compositor, ele nos mostra que há muito o que filosofar sobre a música, assim como também há muito o que se compor e pensar na filosofia.     


Blog MH – Quem veio primeiro, a música ou a filosofia?
Guilherme Paiva – Na verdade elas vieram praticamente juntas, mas acho que a música ainda veio antes. Quando eu tinha seis anos de idade meu pai me deu um piano e eu comecei a tirar algumas músicas simples como “parabéns pra você”, inclusive comecei a tirar de ouvido. Lia a tablatura, mas já conseguia tirar as músicas de ouvido. Depois meu pai me deu um teclado, e aí minha tia me deu um violão, quando eu tinha doze anos, e então eu comecei a comprar revistas de música (naquela época vendia em banca) e comecei a tocar com um amigo, o Derez Marques, lá de Brasília – DF, que hoje tem uma banda chamada Amanita. Depois, com dezesseis anos, comecei a estudar violão clássico e nessa época, o “Chapinha” (irmão do Derez Marques) me passou alguns livros do Nietzshe, Walter Benjamin, alguns livros sobre existencialismo... Então a música veio um pouco antes, mas nesse processo a filosofia aparece, e aí eu começo a estudar a filosofia sem nenhum interesse de fazer ou me tornar professor. Naquela época o meu interesse era me tornar músico...

Então a filosofia surgiu na sua vida por causa da música?   
  
Guilherme Paiva – Isso. A música veio primeiro. Mas naquele mesmo momento, de convívio com esses dois amigos meus, que são irmãos, o Derez Marques e o Chapinha, eu acabei tendo um contato maior com a música e com a filosofia.

Blog MH – Quando você decidiu cursar filosofia?  
Guilherme Paiva – Com dezoito anos, eu decidi me mudar de Brasília-DF para ir morar em Parnaíba-PI. Lá eu também conheci muitos amigos compositores, entre eles o músico piauiense Teófilo Lima. Com ele tive parcerias musicais, tocando em uma banda que se chamava “Rabiscos” e escrevendo letras de músicas juntos. Com dezenove anos eu resolvo fazer vestibular, nessa época eu pensava em me inscrever para filosofia ou sociologia e acabei fazendo para filosofia...

Blog MH - Como foi esse processo de escolha?
Guilherme Paiva – Por conta de algumas leituras que eu tinha na filosofia. Já tinha lido Nieztshe, Sartre, pois havia lido o existencialismo, Walter Benjamin... Esses eram alguns filósofos que eu já conhecia.

Blog MH - Você falou que, antes da graduação, não pensava na carreira de docente. Quando surge a docência em sua vida?     
Guilherme Paiva – Durante a graduação eu fiquei ainda mais interessado em filosofia. Naquele momento já me interessava em fazer o mestrado em filosofia e me tornar professor de filosofia. Isso me levou a fazer pesquisas durante a graduação, então pesquisei Nietzshe e Michel Foucault durante a graduação e no mestrado também. Inicialmente fui fazer meu mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na época, orientado pelo Roberto Machado. Passei um ano morando no Rio de Janeiro. Sem bolsa, acabo retornando para Brasília e desistindo do mestrado da UFRJ. Em Brasília já começo a lecionar filosofia em algumas faculdades privadas, até que depois consigo entrar no mestrado em filosofia da Universidade de Brasília, com o Miroslav, que é um iugoslavo que estava vindo para o Brasil. Durante o mestrado eu acabei me desiludindo com a filosofia. Achei que a filosofia ficava muito restrita a analisar autores europeus e norte-americanos, então se colocava que a filosofia é para pensar a realidade, mas você, na verdade, não pensa sua própria realidade, você tenta interpretar o que os filósofos disseram.

Blog MH – Na filosofia, quais são seus principais estudos e quem mais te inspira?
Guilherme Paiva – Acho que Nietzshe, Foucault, Walter Benjamin, naquele momento (graduação) eram esses os filósofos que mais me inspiraram. Tinha um gosto por David Hume, pelos filósofos empiristas, mas as minhas principais referências eram esses: Nietzshe, Walter Benjamin, Deleuze, Foucault. Tem também o Sartre, mas depois de um tempo eu me afastei um pouco mais dele e foquei mais nesses citados anteriormente. Nesse momento (graduação), eu começo a estudar a genealogia do Nietzshe, na tentativa (claro dentro da proposta da filosofia brasileira de interpretar os filósofos) de conhecer o método da genealogia, depois o método da arqueologia e também da genealogia do poder de Foucault. Essas metodologias, hoje, me servem para outras finalidades em termos de pesquisa. Então eu vou para Sociologia, no doutorado. Decidi sair da filosofia e ir para a sociologia que é um campo totalmente diferente do que eu vinha pesquisando, apesar de ter uma relação que era o campo da educação. Então eu começo a conhecer muitos autores da sociologia, entre eles: Boudieu, Norbert Elias, Anthony Guiddens e começo também, através de uma professora chamada Maria Veloso, a entrar em contato com filósofos da América Latina, entre eles o Leopoldo Zea, e também com filósofos da África e de descendência africana como Franz Fanon, Anthony Appiah e o Stuart Hall. Então eu começo a ver como eu poderia utilizar aquele método da filosofia, tanto do Foucault, de análise dos discursos, como do Nietzshe, de uma genealogia como uma perspectiva histórica, para contribuir para a educação no Brasil. Então começo a trabalhar cultura no Brasil a partir desses referenciais da filosofia. A contribuição que eu busco trazer é a de analisar a realidade brasileira, tanto na área de cultura e educação, além de analisar nosso contexto contemporâneo e essa questão das tecnologias da comunicação e informação como forma de difusão da cultura.

Blog MH - Você falou que o estudo da filosofia brasileira se limita a interpretar os filósofos. O estudo filosofia brasileira difere dos estudos da filosofia em outros lugares?   
Guilherme Paiva – Bom, eu não sei e não posso lhe dizer isso, pois não tenho uma experiência de estudo da filosofia na Europa. Eu achava que tinha mais liberdade, mas quando eu vi a história da tese de doutorado do Foucault, que fez uma tese de doutorado sobre a história da loucura, e aí vai lá na banca, defende e depois da defesa a banca diz: "não, tudo bem, mas você vai ter que escrever um texto sobre Kant (ou sobre Hegel, não lembro agora)"... Essa já é uma tradição da própria filosofia, a de trabalhar com questão da interpretação dos filósofos. Talvez você encontre essa liberdade num momento de mais maturidade, por exemplo, Habermas, como ele trabalha com uma perspectiva interdisciplinar, ele não só utiliza de referenciais da filosofia, como também da psicologia, da sociologia. Ele discute esses referenciais  e utiliza desses referenciais para entender um determinado objeto, problemática, ou questão.

Blog MH – Quem são os principais pensadores da filosofia contemporânea, ao seu ver?
Guilherme Paiva – Hoje eu incluiria o Habermas, o Anthony Appiah, o canadense Charles Taylor e o Leopoldo Zea. Acho que depende do interesse de cada um, então esses são os que eu considero como grandes referências para mim. Esses são autores que me servem para uma visão e reflexão crítica sobre a dimensão social, cultural e política da sociedade.

Blog MH – Muito tem se falado, inclusive dentro das universidades, sobre os temas transdisciplinaridade e interdisciplinaridade. Como você analisa tudo isso?
Guilherme Paiva – Eu vou começar com a interdisciplinaridade. Existem algumas pesquisas sobre esse tema (interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade) que colocam a  interdisciplinaridade como uma forma de metodologia em que você utiliza o conhecimento de diferentes áreas. Então, por exemplo, se você trabalhar a questão do meio ambiente, você pode utilizar a ética e também a biologia, daí surge a bioética, uma nova área do conhecimento interdisciplinar que envolve duas áreas do conhecimento, e do conhecimento acadêmico, já que filosofia e biologia são conhecimentos acadêmicos. Veja que a interdisciplinaridade não envolve somente ciência, pois filosofia não é uma ciência. Então é uma relação entre a ciência e conhecimentos que não são científicos. A transdisciplinaridade já vai além da interdisciplinaridade. Ela também trabalha não somente conhecimentos acadêmicos, mas como também trabalha o chamado "conhecimento popular", os saberes populares. Com a transdisciplinaridade, você pode trabalhar, por exemplo: “quais são os saberes produzidos pela comunidade quilombola situada em Patu ou em Porta Alegre (aqui no RN)”. Essa relação em que você utiliza tanto conhecimentos acadêmicos, seja da sociologia, da antropologia ou da psicologia social (se você for trabalhar representações sociais), como também saberes populares produzidos pelas comunidades quilombolas. Então você transcende o limite da universidade, do conhecimento acadêmico, e vai para o saber popular. Esse é um aspecto transdisciplinar. O termo “trans” quer dizer além. Já o conhecimento interdisciplinar quer dizer uma relação, uma inter-relação entre conhecimentos científicos e não científicos. A transdisciplinaridade ela vai além, ela trata os saberes populares, os mitos... Ela tem um aspecto diferente para a produção de conhecimentos.

Blog MH – Você é um adepto desses novos pensamentos?  
Guilherme Paiva – Sou! Claro que isso também foi em função da criação do mestrado em ciências sociais e humanas (PPGMICSH-UERN), mas eu também tinha uma perspectiva interdisciplinar por eu ter saído da filosofia e ter ido para a sociologia. A criação do mestrado já me conduz para outro momento, esse momento transdisciplinar de sair do campo científico e ir para o saber popular.


Blog MH – Qual seria a visão da filosofia sobre a música e sobre a poesia?
Guilherme Paiva – Você não vai ter uma visão consensual. Vai depender dos autores, dos filósofos. Existem alguns filósofos, ou alguns profissionais da filosofia, estudiosos da filosofia que desconsideram a poesia, já outros vão ter uma visão que a poesia também é importante. Há filósofos que vão considerar a poesia como uma forma de retomar a questão do ser, da existência. Em relação à música, a filosofia também não tem uma visão consensual. Por exemplo, nós temos o Adorno que diz que o Jazz não seria uma forma de arte. Para ele a única forma de arte estaria associada à música erudita.  Então essas perspectivas não são consensuais. Pierre Levy vai analisar a música e suas relações com as tecnologias e vai nos oferecer outra visão sobre arte, música e cultura.

Blog MH – A partir desse debate existente na filosofia, poderíamos afirmar que a música e a poesia não teriam um conceito universal, totalmente definido?
Guilherme Paiva  - Como são formas artísticas e que existe vários tipos de interpretação é complicado ter uma consenso.  Por exemplo, você não tem um consenso em relação ao samba. Alguns teóricos vão dizer que o samba de roda origina o samba carioca, outros pensam diferente... E eles são especialistas em música, não se trata de filósofos. Então nem mesmo os especialistas têm um consenso sobre essa questão. Não existe um consenso sobre a origem do violão, se é uma origem árabe ou grega. Então é uma área em que as questões são mais complicadas. Sobre a poesia eu não tenho como falar, pois é uma área em que eu não tenho estudos aprofundados, mas eu vejo esse aspecto em relação à música.

Blog MH – E qual seria a visão do filósofo Guilherme Paiva sobre a música?
Guilherme Paiva – Na minha visão é um tipo de manifestação característica do ser humano. É possível, também, relacionar a música, o modo de construção da música, com o aspecto cultural. Você deixa de lado alguns modelos. Muito se define música a partir do padrão de música ocidental, mas a música produzida na África quebra esse padrão. Então penso que seja uma forma de manifestação do ser humano. Muito se fala que a música é uma manifestação artística, mas esse conceito de arte também foi construído em um determinado momento da história. Então a música é uma manifestação do ser humano, de uma cultura específica ou de um diálogo entre culturas, produzindo novas formas de manifestações musicais.

Blog MH – Assim como a música, a filosofia também vem sendo deixada de lado pela escola. Como você enxerga esse cenário onde a filosofia e a música não recebem a importância devida no ensino escolar?
Guilherme Paiva – Existem políticas do Estado, no sentido de que a filosofia retorne ao ensino médio, assim como a música... Eu vejo uma desvalorização dessas áreas, e às vezes uma visão preconceituosa que foi construída no Brasil, sobre a música. Essa relação que havia sobre a pessoa que toca violão, a boemia e a malandragem, então se você toca violão já sofre um estigma. Por outro lado, tocar piano é algo relacionado à nobreza, às classes mais altas. Isso relacionado ao estudo do piano. Mas não é um estudo que visa formar alguém para viver de música. Viver de música no Brasil é algo bem recente, vários músicos tiveram dificuldades como Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonzaga... Por exemplo, o Jacob do Bandolim era funcionário público. Então existe uma desvalorização da música. A falta da filosofia nas escolas tem outras razões, como a do governo militar ter retirado a filosofia da grade escolar por a filosofia levar a um pensamento crítico, à reflexão crítica e isso não seria interessante. E hoje acaba tendo um desinteresse maior em relação à filosofia porque a sociedade de consumo atual tem um interesse no que é utilitário. Uma sociedade que possui meios de comunicação de massa que não levam à reflexão e, assim, as crianças e os adolescentes acaba tendo pouco interesse por essa questão de uma reflexão mais aprofundada seja sobre a sociedade, a política ou a cultura.

Blog MH – Você concorda que a música vem se tornando num produto comercial e perdendo a sua poesia?
Guilherme Paiva – Essa transformação da música em mercadoria ocorre desde a formação do sistema capitalista. Se analisarmos, Beethoven já vendia suas músicas, mas isso não quer dizer que sua música era comercial. Claro que na sociedade atual, o consumo leva a uma moda e ao que é o efêmero. Depois de um tempo aquilo deve ser trocado, é descartável. Mas ainda se tem expressões musicais que não se colocam como comerciais. Recentemente eu vi um link que mostrava Hermeto Pascoal, dizendo não ter interesse em ganhar dinheiro com a música, ele tem interesse em fazer música. Então o interesse dele é fazer e não comercializar a música. Então tem gente pensando diferente.    

Blog MH – O que é compor?
Guilherme Paiva – Se desvencilhar de uma visão racional e ir para uma dimensão mais contemplativa em que você não pensa em sistematizar. É um momento de inspiração.

Blog MH – O que é ser musicalmente humano?
Guilherme Paiva – É deixar fluir a música que você tem dentro de si. É colocar a música num papel, numa partitura ou executá-la em algum instrumento.

Blog MH – Um gênero musical?
Guilherme Paiva – Hoje, para mim é o choro.

Blog MH – Uma música?
Guilherme Paiva – Choro Nº 1 de Villa Lobos.




    

sexta-feira, 6 de junho de 2014

BMH Entrevista - Vander Lee



Cantor, compositor, poeta, amante da música... São essas algumas palavras que utilizo na tentativa frustrada de definir o fantástico músico mineiro, Vander Lee. Com mais de vinte anos de carreira e com composições eternizadas na voz de grandes intérpretes brasileiras, como Elza Soares, Maria Bethânia e Gal Costa, Vander Lee não para de alimentar nossa alma com belas canções e se prepara para lançar seu mais novo CD: Loa. De passagem por Mossoró-RN nesse último final de semana, 30/05/14, ele encontrou um tempo para nos responder musicalmente e deixou um recado para todos os leitores do nosso blog. Confiram!

Blog MH - Como surgiu sua paixão pela música e em qual momento você decidiu que iria ter a música também como profissão? 
Vander Lee - A música surgiu em minha vida, assim como da minha família, através do meu pai, violonista nas horas vagas. Logo depois veio o rádio, as primeiras tentativas de estudar violão... mas acho que só aos vinte anos decidi fazer isso minha profissão.

Blog MH - Qual foi o artista de nome nacional que primeiro divulgou a poesia das composições do Vander Lee? 
Vander Lee - Elza Soares me descobriu, foi a primeira estrela a enxergar em mim um talento que poderia dar certo.

Blog MH- Você é um dos grandes novos nomes da MPB, como: Chico César, Maria Gadu, Marcelo Jeneci, entre outros. Mas, infelizmente, vocês não têm o mesmo espaço que outros artistas possuem na mídia. Como você enxerga tudo isso?
Vander Lee - Acho isso um retrato do Brasil. A falta de acesso que existe nos meios de comunicação ainda mostra um povo acomodado e pouco afeito a novidade...

Blog MH - Como você avalia a música brasileira na atualidade? 
Vander Lee - Acho que a música brasileira sempre esteve muito bem, a despeito das dificuldades que enfrenta. Essa geração está pegando um período de muitas mudanças de paradigmas, novas políticas culturais, novas formas de fazer musica, novos modelos de distribuição.... mas acho que pros jovens está mais fácil do que foram para outras gerações. Essa geração representa a possibilidade de se fazer uma carreira no estilo "Faça você mesmo"...

Blog MH- Seu mais novo CD traz o título “SAMBARROCO”, qual sua relação com o samba? 
Vander Lee - Existe essa relação com o samba desde sempre, através de meu pai, daquilo que ouvi durante a vida e resulta em sambas autorais desde que comecei a compor.

Blog MH- Qual o segredo de tanta poesia cheia de romantismo e lirismo? Vem do meio em que você viveu a juventude ou são raízes de sua família? 
Vander Lee - Acho que isso vem da minha personalidade mesmo, nunca fui muito diferente disso. Tenho dificuldade com a falta de poesia na vida, a falta de doçura, de educação, de romantismo..

Blog MH - Você sente falta, nos dias de hoje, dos grandes festivais de outrora onde foram revelados grandes talentos? 
Vander Lee - Acho que esses programas de competição na tv são os festivais do momento, com as características que dão vazão a uma musica mais pop, sem compromisso com a cultura brasileira. Esses concursos surgiram porque os festivais como eram esgotaram uma fórmula, não se renovaram...

Blog MH - O que é compor, Vander Lee? 
Vander Lee - Juntar coisas soltas e dar uma forma que conte uma historia que represente um momento, uma imagem, um fato...

Blog MH- Você poderia definir a música? 
Vander Lee - A matemática sonora e sensorial do tempo.

Um bate pronto, rapidinho... 

Blog MH - Depois de ser gravado por grandes nomes, Vander Lee ainda sonha em escutar sua música na voz de... 
Vander Lee - MUita genteeee!!!!

Blog MH - Um gênero musical? 
Vander Lee - Todos.

Blog MH- Uma música que te represente ou que marcou sua vida? 
Vander Lee - Nesse momento, "Tú", do meu novo cd LOA, que sai jajá!

Blog MH - Espero que você volte novamente a Mossoró para mostrar mais o seu trabalho. Não nos deixe aqui "esperando aviões". Um forte abraço e sucesso sempre. Para finalizar, você poderia deixar um recado para todos os leitores do Musicalmente Humano que, como você, são todos românticos apaixonados pela música e poesia? 
Vander Lee - Fiquem bem, tenham fé, força, saúde e paz pra desfrutar a música em todo o seu esplendor...


sexta-feira, 23 de maio de 2014

BMH Entrevista - Fábio Roberto


Chorão conhecido em Mossoró, integrante do grupo de choro Ingênuo, professor do Conservatório de Música D'Alva Stella Nogueira Freire (UERN), graduado em música, especialista em artes e musicoterapia. Esse é o currículo de Fábio Roberto Monteiro, nascido no dia 30 de junho de 1980, dia em que o Papa João Paulo II chegava ao Brasil. Por esse fato, segundo o próprio relato, teria o nome de João Paulo, mas como a tia gostava muito de Fábio Júnior e a mãe era fã de Roberto Carlos ganhou o nome de Fábio Roberto, a junção dos nomes desses dois cantores brasileiros. Como ele próprio disse, tinha a música como sua sina. Uma entrevista musical com o Fabinho do cavaco.


Blog MH - Como começou sua relação com a música?

Fábio Roberto - Minha relação com a música começou quando eu fui coroinha da igreja do bairro paredões, Mossoró, e lá tinha um projeto chamado de Projeto Esperança, idealizado pelo Padre Guido Toledo, esse projeto reunia o pessoal do bairro. Neste projeto eram ofertados muitos cursos, inclusive cursos de música. Então, comecei a me envolver com a música quando eu entrei no curso de percussão. Depois daí, um amigo meu que conheci no Projeto Esperança, me chamou para montar um grupo de pagode, na época o pagode estava em alta, e então montamos o “Swing do Samba”. Esse meu amigo tocava percussão muito bem e também, cavaquinho, então começamos a banda comigo tocando tantam. Certa vez o braço do cavaquinho da banda, que não era muito bom, rompeu e então, o meu amigo cavaquinista o abandonou. Assim, eu pedi para que ele me deixasse ficar com o cavaquinho para eu tentar aprender alguma coisa. Ele me deu o cavaquinho, eu consertei o braço, mandei colar, e comecei a estudar. Daí eu comecei a gostar, e me identificar com o cavaquinho, que foi meu primeiro instrumento, nessa época eu tinha de 17 a 18 anos, idade que muitos consideram tarde para o começo de uma carreira musical, quando a idade indicada para se começar a estudar música, para se tornar um grande músico, é de 6 a 10 anos.  Então eu comecei a tocar cavaquinho na nossa banda Swing do Samba. Lembro que nessa época eu ia ver um senhor chamado Totonho que tocava cavaquinho, mas como ele era canhoto eu não conseguia compreender bem os acordes que ele fazia e foi aí que entrei na escola de artes da prefeitura de Mossoró e comecei a ter aulas com o professor Carlos Batista. Nessa época a nossa banda já tocava em alguns lugares, na noite. No decorrer que eu fui estudando música, a banda também foi se estruturando, aumentando o número de instrumentos e assim foi se tornando algo mais sério, já que antes era mais uma brincadeira. Lembro que nessa época, em Mossoró, tinha tudo do samba: Inalasamba, entre outras e também Swing do Samba. Quando eu vi que eu estava desenvolvendo o estudo do cavaquinho, optei por entrar no Conservatório de Música, e assim foi, tentei, mas não passei na primeira vez, fiquei na suplência, mas aí alguém desistiu, me ligaram e disseram que tinha uma vaga. Assim eu consegui entrar no conservatório (nada foi fácil!). No conservatório eu queria aprender cavaquinho, mas não tinha professor. Então apareceu uma vaga para cavaquinho no Grupo de Chorinho do Conservatório, já que faltava cavaquinho. Eu fiz o teste, o pessoal gostou e eu entrei para o grupo. Esse foi mais um estímulo para que eu desenvolvesse mais ainda meus estudos, já que eu participava então do grupo de chorinho do Conservatório de Música de Mossoró, acompanhando pessoas muito mais experientes que eu, como: maestro Batista, Lima Neto entre outros. Assim começou minha carreira musica.

Blog MH – Como se deu a escolha da música como sua profissão?

Fábio Roberto – Eu acredito que quando as coisas têm que ser, elas caminham naturalmente. Eu participava do grupo de chorinho e fazia um curso de manutenção de computadores. Eu já tinha certa experiência nessa área e a instituição encaminhava os alunos com melhores notas para algumas empresas. Eu fui encaminhado, então, para uma loja bem conceituada daqui da cidade. Nesse caso, eu teria que deixar o grupo de chorinho para começar a trabalhar lá. Mas aí o gerente da loja disse que não ia dar certo, pois já tinham sido indicados antes alguns alunos do IFRN, na época o CEFET (que era uma instituição bem mais conceituada) e então fiquei sem meu emprego, mas com a promessa do gerente da loja de me encaminhar para outro local que estava precisando de um técnico. Na semana que iam me encaminhar para outra loja, Lima Neto, do grupo de choro do Conservatório, me falou que eu iria começar a receber uma bolsa para tocar no grupo. A bolsa era menor que o salário da loja, mas aí eu analisei o que eu queria para a minha vida. Foi nesse momento que parei, pensei e vi que seria músico. O engraçado é que antes eu não pensava em ser professor, lembro que no início de tudo e com um cartão de um amigo, eu comprei umas videoaulas para aprender cavaquinho e esse amigo me falava que eu iria utilizá-las para ensinar para meus alunos, mas eu não me imaginava como professor. No fim terminei utilizando essas videoaulas com meus alunos (risos). Outra decisão importante que tive que tomar foi quando eu participava do grupo samba nobre, na época se chamava Faixa Nobre, e já tinha conseguido entrar na universidade, no curso de música. Meu tempo estava muito cheio, tinha monografia, outras disciplinas da faculdade, tinha meus choros para fazer... Então eu pensei: ou eu continuo na banda, onde era muito bom o ambiente e eu me divertia muito, ou terminarei o curso regular e no tempo certo. Então fui falar com André da Mata (cantor da banda) e disse para ele que gostava muito da banda, mas iria priorizar a faculdade. E assim, consegui terminar o curso no tempo certo, o que me possibilitou participar e passar no concurso de professor para o Conservatório, onde estou até hoje.

Blog MH – Até agora deu para perceber que o choro é bastante importante para você. Mas como você vê a importância do choro para o Brasil?

Fábio Roberto – Além do Ingênuo (grupo de choro da universidade) onde estou há 14 anos, também sou coordenador do Cá entre Nós, outro grupo de choro daqui da cidade. Na verdade o choro é o avô dos outros gêneros (samba, bossa nova) porque no início o choro era a maneira de tocar as músicas europeias e passou a ser totalmente brasileiro porque tocavam de uma maneira que não se tocava na Europa. Depois foram criados alguns padrões, como: as três partes do choro, B, A e C; contraponto; Improvisos. Depois do choro vem o samba, a bossa nova... mas o choro é o primeiro gênero totalmente brasileiro, apesar de muitos historiadores musicais alegarem que antes dos portugueses chegarem aqui, existia músicas indígenas com flautas, flautas de nariz entre outros instrumentos típicos. Mas com harmonia, melodia e ritmo, o choro foi o primeiro gênero musical brasileiro. Um gênero de alta qualidade, não é todo mundo que toca um chorinho.

Blog MH – Como você vê o choro no Brasil nos dias de hoje?  

Fábio Roberto - O choro passou por várias transformações. Ainda existem chorões que seguram a bandeira do choro mais tradicional, já outros que são mais modernos. Por exemplo o Hamilton de Holanda e o próprio Yamandu Costa, são considerados chorões, porém eles têm a influência do jazz entre outros gêneros, e vai aos poucos incrementando isso no choro...

Blog MH – Você acha isso válido, Fábio?

Fábio Roberto - Eu acho legal. Penso que a música tem que evoluir sempre, mas não se pode esquecer as tradições, pois se você modernizar demais vai deixar de ser choro, perde a identidade. Porém se existe equipamentos mais modernos, como: captadores, microfones e até instrumentos que venham para melhorar a qualidade sonora, a gente tem que utilizar, assim como estudos, como: escalas e harmonias.

Blog MH – Como você definiria a música?

Fábio Roberto – Para mim primeiramente vem Deus, depois minha família e depois a música. Toda hora eu penso em música, por exemplo, nesse momento eu estou conversando com você e já estou com uma música na cabeça. Para falar um conceito sobre música é difícil. A música é muito abrangente, não teria um conceito formado agora para te falar agora.

Blog MH – Então você acha que o ser humano está longe de encontrar um conceito pleno sobre a música?

Fábio Monteiro – O ser humano em geral ainda não entendeu a importância da música para ele. Pela música é possível transformar uma pessoa de várias formas. Se o homem entendesse isso seria tudo melhor. Até mesmo as músicas que tocam nas rádios podem influenciar toda uma população, civilização, tanto para o bem quanto para o mal. Já existem pesquisas comprovando que vacas que escutam música dão melhor leite, ou aplicação de música clássica para bananeiras e as bananas nascem com um gosto melhor. Então, se o vegetal sofre influência, imagine um ser o humano. Então é difícil descrever com palavras o que é.   

Blog MH- Como a educação musical pode ajudar na transformação por um mundo melhor?

Fábio Roberto – Se os governantes dessem a devida importância à música, ou ao menos fizessem valer essa lei (nº 11.769, que obriga a música nas escolas) iria beneficiar muita gente. Daria emprego para os graduados em música (licenciatura), incentivaria as pessoas a terem uma melhor cultura, uma vivência e um estudo mais aprofundado dentro da música. Através disso as pessoas começariam a ter uma maior consciência sobre o poder da música sobre o ser humano. Infelizmente os governantes deixam de valorizar não só a música, como também a arte como um todo. A educação é a base de tudo, quando você tem uma boa educação, você tem uma boa saúde, por entender mais sobre certas prevenções que devem ser feitas; Você respeita mais outra pessoa, pois já que você entende a situação do outro, vai amá-lo mais. Então a educação musical deve está incluída nessa educação tradicional.

Blog MH - Você possui duas especializações, uma em arte e a outra em musicoterapia. Como você acha que a arte pode nos tornar mais humano?

Fábio Roberto -  Muitas pessoas são músicos, ou faz outro tipo de arte, mas quando você observa, você percebe que a arte ainda não as tocou. Quando a arte toca a pessoa, a sensibilidade dessa pessoa muda, ela começa a ver o mundo de uma maneira diferente. Há pessoas que são “artistas”, mas a arte ainda não as tocou. Como exemplo, eu posso citar Antônio Francisco. Se você conversar com ele, você vai perceber que ele transmite uma paz, uma coisa boa, acredito que nele a arte chegou e não saiu mais. 

Blog MH – Graduado e pós-graduado, como surgiu o interesse em cursar outra pós-graduação? No caso, a musicoterapia.

Fábio Roberto – Como eu falei antes, acho que as coisas acontecem como tem que ser, é incrível. Eu tinha acabado de acordar e me veio algo na minha cabeça que eu precisava usar a música, que eu tanto gosto, para ajudar as pessoas. Assim, eu me lembrei da Casa de Apoio a Criança com Câncer. Eu já tinha feito um projeto com Gianinni (cantor do Forró Danado) lá, anteriormente, onde fomos tocar em um São João. Então fui lá e conversei com a assistente social para que eu pudesse desenvolver algum projeto lá. Até então eu não conhecia nada de musicoterapia, eu só queria de alguma forma tornar mais felizes as crianças que estavam com câncer. Falei com Dr. Cury e nós criamos uma orquestra lá na casa de apoio, Alegria de Viver, eu assumi a coordenação e assim se estabeleceu aulas de flauta, de violão, teatro, de arte em geral. Eu fui cada vez mais me interessando e um dia pesquisando na internet, vi que existia o nome “musicoterapia”, até então eu não sabia. Pesquisei e vi que muita coisa da musicoterapia eu já fazia intuitivamente, mas eu não tinha o referencial teórico. Me interessei pela musicoterapia e comecei a pesquisar sobre o curso, vi que o mercado era amplo, aqui na região (o mercado nessa área é escasso de profissionais) e me interessei com essa nova possibilidade. Entrei em contato com o pessoal da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO) e o pessoal me falou que uma nova turma estava iniciando, então eu e Huda (professora do Conservatório) nos interessamos e nos inscrevemos no curso. Foram dois anos de curso. Pernambuco é um estado onde a cultura é muito valorizada, diversificada e difundida, então foi muito proveitoso para mim e recompensou todas as noites de sono durante as viagens de ida e volta (Mossoró – Olinda). Hoje eu fico muito feliz quando vejo depoimentos de várias pessoas da Casa de Apoio, que relatam que a musicoterapia os ajuda muito. Depois que conheci a musicoterapia, pude ver a música com outros olhos. Ela não foi feita só para simplesmente ser escutada, é algo muito mais abrangente. É gratificante trabalhar com musicoterapia.

Blog MH – Como você definiria a musicoterapia?

Fábio Roberto - É uma ciência que pode tratar as pessoas com os mais variados tipos de patologia. Ajuda na prevenção de doenças, que é muito importante, entre muitos outros benefícios. Espero divulgar e difundir a musicoterapia aqui na nossa região. Futuramente, quem sabe possamos abrir uma especialização na UERN, ou algo nesse sentido, para que mais pessoas possam cursar e, assim,  ajudar mais indivíduos que precisam.

Blog MH – Vemos muitas críticas sobre a música popular brasileira atual, tocada em rádio e TV, apoiada e escutada por uma grande massa. Como você vê a música brasileira, atualmente?

Fábio Roberto – Vejo na música brasileira uma mistura muito grande de vários ritmos, sotaques, com influências de outros países latino-americanos, de países europeus, africanos e entre nós mesmos. A mídia transmite o que é do interesse dela, no caso ela transmite uma música vendável, de entretenimento, com letras e arranjos não muito aprofundados, são músicas fáceis de vender. Claro que ainda há rádios onde é tocada uma música de maior qualidade, músicas alternativas. Como fala um amigo meu, não vou te dizer que Aviões do Forró é ruim, pois no São João de Mossoró, a Estação das Artes fica lotada. Na música tudo é questão de ponto de vista, eu respeito. Mas penso fortemente que deveriam ser oferecidas mais oportunidades e espaços para que pudessem ser divulgados outros gêneros menos conhecidos e de muito boa qualidade, como o chorinho. Não concordo muito nessa divulgação em massa de uma música com baixa qualidade e com letras banais que podem influenciar toda a sociedade. A música influencia o ser humano. Se fossem mais valorizadas músicas com letras mais bem trabalhadas, que pudessem influenciar beneficamente a sociedade, seria bem melhor para todos nós. Você pode perceber que hoje as pessoas não querem mais um esforço para pensar algo mais complexo, as pessoas perderam a capacidade de pensar musicalmente. Isso é complicado e deve ser repensado.

Blog MH – O que é ser musicalmente humano?

Fábio Roberto – É compreender que a música transforma pessoas e fazer o bem a todas as pessoas.

Blog MH – Um gênero musical?

Fábio Roberto – Só um fica difícil, direi três: música clássica, chorinho e música nordestina (em geral).

Blog MH – Uma música?

Fábio Roberto – Já que disse três gêneros, vou dizer três músicas: Jesus alegria dos homens (Johann Sebastian Bach), Carinhoso (Pixinguinha) e Que nem jiló (Luiz Gonzaga).